Laphroaig – uma retrospectiva de 2020

Eu me lembro a primeira vez que bebi um Laphroaig. 

Era o clássico 10 anos, minha cunhada havia trazido a garrafa como presente para minha esposa. Abrimos , colocamos nos copos e…

Era difícil ouvir o que as pessoas estavam dizendo, talvez por causa dos solos de guitarra que anjos começaram a fazer na sala. Enquanto meus olhos disparavam rajadas de raios laser uma manada de dinossauros robôs tocando gaitas de fole surgiu no horizonte respondendo ao meu chamado. Mesmo flutuando a mais de um metro de distância do chão eu não sentia nenhum tipo de vertigem.

A única coisa que se passava pela minha cabeça era “Todo whisky deveria ser exatamente assim! Isso é lindo! Suave, elegante, perfumado… e o gosto! Uma obra de arte!”

Comecei a desconfiar da memória das pessoas quando, ouvindo minha história, insistiam em afirmar que eu não voei naquele dia, nem que Dinotrucks de mini saias apareceram em qualquer lugar.

Sempre gostei e bebi whisky, tinha uma vaga noção de que pessoas comentavam coisas sobre “single maltes” e que o universo do whisky era um pouco mais complexo do que as prateleiras do supermercado onde eu fazia compras, mas aquele copo mudou tudo. 

Comecei a desconfiar do gosto das pessoas quando, tentando descobrir mais a respeito daquele licor divino, me deparei com os anúncios endossados pela destilaria.

1- É como levar um coice na cara, de um cavalo que passou o dia galopando em um pântano turfado.

2- Uma sinfonia de fumaça. Tem o gosto de um hospital queimando. Terra nunca teve um gosto tão bom.

3- É como correr pelado através de um pântano de turfa durante um incêndio e pular em uma banheira de fumaça líquida.

Era estranho, as descrições até que batiam – hospital queimando… coice de cavalo… correr pelado em um incêndio, ok isso fazia alguns sinos tocarem na minha memória – mas as pessoas pareciam perceber o whisky de uma maneira diferente da minha. Onde estava o sabor, a efemeridade,  a suavidade e a elegância, a perfeição?

De fato uma adolescência abastecida à base de Jack Daniels talvez tivesse calejado um pouco meu paladar, procurando por mais opiniões descobri pessoas que faziam review de whiskies. “Que engraçado!”, me lembro de ter pensado, “parece que tem gente que lê isso. Tem gosto para tudo nesse mundo.”

As primeiras que encontrei começavam descrevendo o impacto marcante do primeiro copo de Laphroaig no interlocutor e começavam quase todas com “Eu me lembro a primeira vez que bebi um Laphroaig” – o que fez com que eu secretamente me sentisse parte de uma irmandade – e então descreviam suas impressões, que seguiam a linha de:

“Lembro-me de balbuciar algo como ‘Santa Maria, mãe de Deus, por favor me ajude, estou morrendo!’ enquanto as ondas de sabores defumados, oleosos e salgados dominavam meu paladar.”

Ou

“Meu primeiro contato com Laphroaig foi com o 10 anos e, na verdade, o achei horrível. Eu simplesmente não conseguia entender por que alguém beberia antisséptico para se divertir e certamente não conseguia me ver encontrando qualquer tipo de alegria no conteúdo da famosa garrafa verde e branca.”

VOCÊ SEMPRE VAI SE LEMBRAR DO SEU PRIMEIRO LAPHROAIG

Isso fez com que eu secretamente me sentisse parte de uma irmandade de uma pessoa só, ninguém mais gostava do raio do whisky? Mas a sensação era até que boa, se ninguém entendia o Laphroaig melhor pra mim. Sobrava mais.

Mas tudo era questão de tempo. Todos esses reviewers (se é que essa palavra existe) sem excessão aprenderam a gostar e então a amar o Laphroaig. Com o tempo todos eles aprenderam respeitar a tal garrafa verde e branca. Curiosamente depois do amor veio algo estranho, porque todos eles parecem sentir imenso prazer em dizer que se o Laphroaig que você está bebendo foi feito depois dos anos 1980… Ai! É a coisa aguada e totalmente sem graça que começaram a comercializar na época. Quase todas as críticas populares, para não dizer profissionais,  dedicam parte do espaço do texto para falar que o Laphroaig de hoje não passa de uma sombra de sua versão passada – e isso parece estar virando uma tendência de muitos críticos de whisky, ao invés de analizar a bebida que provam agora a comparam com a mesma versão de décadas atrás apenas para mostrar como é triste ter que beber as versões diluídas, sem graça, com gosto de papelão molhado, produzidas em massa hoje em dia. Eu pretendo não ser tão amargo.

Um pouco de história

Laphroaig se pronuncia Lá-Fróigui.

É uma das destilarias de Islay (se pronuncia Áila) e seu nome vem da área em que ela se encontra.

Por volta de 1815, dois irmãos, Donald e Alexander Johnston, alugaram 1000 acres do proprietário de  terras de Islay, para a criação de gado. Essa terra agora é conhecida como Laphroaig – o significado se perdeu no tempo mas hoje se acredita que o nome quer dizer o “Vale da Baia Larga”.

Para se criar gado você tem que alimentá-lo e a escolha de ração era a cevada. Nada mais natural do que plantar os próprios grãos para alimentar os animais durante os longos meses de inverno, e nada mais natural ainda, se você é escocês, do que destilar o excesso de grãos. Naquele mesmo ano a fama do whisky de Laphroaig começa a se espalhar por Islay e logo se tornou mais lucrativo vender whisky do que criar gado. Nascia mais uma destilaria em 1885.

Na primeira década de 1900 começou a acontecer algo em Islay que deixaria o próprio MadMax com medo. Duas destilarias rivais e vizinhas começaram a levar sua briga para outro nível e surge a Guerra da Água!

Vamos ver quem faz a melhor whisky-cola!

Em 1907, Peter Mackie – da destilaria Lagavulin – bloqueou o córrego Kilbride da destilaria com pedras. Com a água desviada, Laphroaig ficou sem um ingrediente-chave e sua única fonte de refrigeração e posteriormente não conseguiu funcionar. A disputa foi resolvida em pouco tempo – de maneira menos espetacular do que um filme de MadMax – e logo Laphroaig voltou a destilar.

1921 vê o início da era de Ian Hunter, o novo administrador da destilaria. Ele foi o responsável por expandir a propriedade, o número de alambiques e levar o single-malt para o mundo. Dizem que até conseguiu alguns contratos de venda nos EUA durante a Proibição, graças a seu aroma e sabor medicinal que ajudou a convencer os agentes aduaneiros de que aquilo se tratava de remédio da melhor qualidade. Ian Hunter também foi o responsável pela criação do Laphroaig 10 anos.

Hoje como golpe publicitário a Laphroaig transformou a Guerra da Água em uma ação divertida. Todo mundo que comprar uma garrafa pode se tornar proprietário de um belo terreno em Islay. Ok, um pequeno terreno. E isso não significa que você ganhe cidadania inglesa nem nada do gênero, mas cada tubo de Laphroaig vem com um cupon que traz um número de série único, ao entrar no site e registrar o número você se torna proprietário – ou proprietária – de 1 pé quadrado de terra que pode ser reclamado. Visitando a destilaria você assina seu nome no livro dos proprietários, pode ir marcar o seu quinhão de terra com uma bandeira de seu país e de quebra recebe um aluguel anual por deixar que a destilaria use a água do seu terreno: uma dose de whisky.

A Laphroaig faz parte do portfólio de destilarias da Beam-Suntory e tem uma produção anual de mais de 3,300,000 de litros de whisky.

Quer conhecer a destilaria?

Review

E para começar o ano – e recompensar quem teve a paciência de ler até aqui – ao invés de compartilhar a avaliação de apenas uma garrafa, vou colocar aqui uma comparação de 6 Laphroaigs diferentes, primeiro de forma individual e depois comparando todos.

Para quem não sabe o Laphroaig 10 é o carro chefe da destilaria, mas entrando na moda que parece ter dominado as últimas décadas, começaram a produzir expressões diferentes, a maioria quase absoluta sem declaração de idade (No Age Statment, ou NAS). Por que fazem isso? A discussão é agitada e não está nem perto de terminar.

Por um lado afirmam que para serem competitivas comercialmente em um mercado que cresce a cada ano, as destilarias simplesmente começaram a engarrafar os whiskies que tinham à mão. A lógica chega a ser maquiavélica, suponha que você produz anualmente 1000 garrafas de um whisky envelhecido 10 anos, um whisky tem que passar pelo menos 3 anos dentro de um barril para ser considerado whisky. Você tem 10 barris cheios, cada um enche 1000 garrafas – os números são hipotéticos, apenas para trabalharmos com contas redondas – só que o mais antigo já está envelhecendo seu conteúdo há 10 anos, outro há 9, outro há 8 anos. Você tinha se programado para esperar o barril atingir 10 anos e por o conteúdo no mercado, o barril que este ano tem 9 anos vai estar pronto ano que vem, o que tem 8 daqui a dois anos. Todo ano você enche um barril novo e o coloca no fim da fila, assim você tem sempre 10 barris guardados. Até aqui ok? De repente a multinacional que comprou sua destilaria te fala que não! “1.000 garrafas é pouco, precisamos vender pelo menos 3.000!”. Se você não tem um DeLorean movido a plutônio não tem como forçar que dois outros barris envelheçam mais rápido, eles envelhecem sempre na mesma escala: 1 segundo por segundo. 1 dia por dia. 1 anos por ano.

Como você arranja mais 2.000 garrafas para preencher a cota que pediram? Você pega o seu barril de 10 anos e o engarrafa e pega dois barris mais jovens – um de 6 anos e um de 5, por exemplo – e os engarrafa sem declarar a idade do whisky. Pronto, este ano você tem o seu whisky 10 anos tradicional no mercado e dois rótulos novos sem idade para lançar, dê um nome bacana para eles e pronto: novidades da sua destilaria.

E de quebra este ano ao invés de encher apenas um barril para colocar para maturar você enche 3 para substituir os que foram engarrafados. Claro que isso cria um problema: ano que vem você terá mais um barril com 10 anos. No próximo também. E no outro. Mas então o barril que completaria 10 anos de maturação no quarto ano depois do seu lançamento não existe, ele era o nosso barril 6 anos. E agora você tem 3 barris com a mesma idade envelhecendo juntos, os 3 que você encheu juntos.

Parece absurdo? Algumas marcas famosas já tiraram rótulos com idade declarada do mercado porque ficaram sem os maltes envelhecidos por aquele tempo.

Mas por que alguém compraria um whisky envelhecido bem menos tempo de uma destilaria, ele não pareceria só uma versão inferior do mesmo whisky?

aceita nosso novo BigMac light? É o mesmo sanduíche só que com menos hambúrgueres, sem molho especial e nenhum gergelim no pão? Ah sim, também não tem alface. Mas não se preocupe, enchemos de ketchup e mostarda.

Ai entra a “finalização” em barris diferentes, que muitos consideram o mesmo que dar uma “temperada” no whisky. Aquele whisky de 5 anos, por exemplo, pode sair do barril original e ir para um barril que antes teve vinho dentro e ficar 6 meses “finalizando” nele, no rótulo poderiam colocar NOVO WHISKY – FINALIZADO EM BARRIS SOBERBOS DE XEREZ RARO! Aquele whisky 6 anos pode ser colocado em barris menores, ou metade dele ir para um barril novo de carvalho e o rótulo traria QUARTER  CASKS (com barris menores, a proporção whisky madeira é maior dando mais personalidade para sua bebida) ou DOUBLE CASK – envelhecidos em diferentes barris, ou barris virgens.

Algumas dessas experiências acabam criando whiskies que são mais caros do que o envelhecido 10 anos, dizem que a qualidade da bebida ultrapassa sua idade.

E assim sua destilaria consegue lançar diferentes rótulos a preços mais acessíveis – ou até mais caros – passando de 5 rótulos no mercado para 15 ou 20.

Por outro lado, muitos defendem que é natural que hoje em dia que os master distillers busquem novas experiências, criando novos whiskies de qualidade mesmo que não tão envelhecidos, oferecendo para um público cada vez mais curioso e exigente bebidas amadurecidas em diferentes barris, com novas técnicas, trazendo uma evolução da bebida. E quem defende isso também não está errado. Muitas dessas experiências com barris diferentes criam whiskies excepcionais.

E qual o veredito final: desespero comercial ou amor à arte? Só bebendo para responder.

Vamos às garrafas de hoje:

  • Laphroaig Select
  • Laphroaig Four Oak
  • Laphroaig 10 anos
  • Laphroaig Quarter Cask
  • Laphroaig  QA Cask
  • Laphroaig PX Cask

Análises feitas em ordem de valor* da mais barata para a mais cara (preços médios do Reino Unido).

Laphroaig Select

Destilaria: Laphroaig
Tipo: Single Malt
Idade: NAS
Região: Islay
ABV: 40%
Preço: £22
Preço no Brasil: R$330,00 (jan 2021)

Notas:

O Select ganhou vários prêmios em 2019:

2019 International Spirits Challenge Silver
2019 San Francisco World Spirits Awards Gold
2019 SIP Awards Bronze

A embalagem nos diz que esta versão foi criada de barris cuidadosamente selecionados (dai o nome Select) aos quais foram acrescentados uma adição notável. Ele foi criado com uma seleção do Quarter Cask, Px Cask e Triple Wood – a adição notável é do Laphroaig 10 anos. Além disso o “coração” da bebida passa 6 meses dentro de barris de carvalho americanos novos nos locais mais altos e quentes do armazém de barris durante o verão escocês. Ele é engarrafado na cor natural – sem adição de caramelo.

De cara é o mais barato dos Laphroaigs e a descrição dá a impressão de que juntaram nele um pouco de tudo o que tinham à mão. “Passem o rodo em todos os barris e juntem naquele maior! Vamos vender!” Dizer que o coração ainda recebe uma maturação à parte dá outra impressão: parte do whisky ainda não estava nem dentro dos limites de qualidade da destilaria e precisaram de uma adaptação rápida – a técnica de colocar barris de carvalho americano nos lugares mais altos e quentes é usada por destilarias de bourbon nos EUA para tentar arredondar mais suas bebidas.

Experimentando a bebida fica óbvio que é a mais fraca em termos de aroma e sabor. A equipe de marketing que não dorme no ponto diz que este Laphroaig foi criado para pessoas que não estão acostumadas com whiskies turfados e medicinais começarem a beber sem se assustar, dai ele ser mais leve e neutro. Mas saiba também que este é um whisky de qualidade, ele perde para as outras expressões (outros rótulos) da destilaria, mas ainda senta o sarrafo em muito whisky envelhecido por ai, Juro que não vou dar exemplos.

No nariz:

Assinatura clássica Laphroaig. Se você ainda não provou a marca encontra já aquele adocicado da turfa e um pouco de malte. Então chega a tradicional salmoura envolta em perfumes cítricos. Fumaça e, por baixo da fumaça, baunilha, mel um que de caramelo. Lembra uma brisa marinha. Álcool presente com alguns toque metálicos.

Agora se você já provou um Laphroaig mais parrudo vai reparar que a turfa está quase etérea, um quê de queimado ronda as notas doces (que provavelmente vieram do carvalho novo americano no canto quente do galpão). Dá para sentir bem onde esses barris americanos estão servindo para tirar alguns aromas que poderiam ser desagradáveis.

Na boca:

Doce com um toque de cinzas, um pouco apimentado – talvez um efeito colateral do álcool novo, que é bem perceptível com ecos metálicos. Baunilha, o barril americano está presente no gosto. O cítrico está ai, de leve. O defumado leve – mas mais forte do que um Black Label, por exemplo. A salmoura está ai, me de leve, algo de frutas, mas que aparece depois do terceiro gole, muito leve.

De novo, se você não conhece o Laphroaig este serve como um teaser do que você vai encontrar em outras garrafas. Se você já conhece provavelmente vai achar sem graça. Os 40% de álcool também não ajudam em nada a deixar essa versão mais interessante.


Laphroaig 10

Destilaria: Laphroaig
Tipo: Single Malt
Idade: 10 anos
Região: Islay
ABV: 43%
Preço: £30
Preço no Brasil: R$400,00 – R$30 reais para cima, R$30 reais para baixo (jan 2021)

Notas:

Muito prazer, este é o cartão de visitas da destilaria.

Imagine uma família esquisita, vários irmãos e irmãs, tias e avós… todos eles são diferentes em sua esquisitice mas tem algo em comum – são os olhos separados? O jeito que a boca fica quando eles sorriem? A risada estranha? você não sabe exatamente o que mas claramente são membros da mesma família. Ai o pai aparece e tudo se encaixa! O pai é o Laphroaig 10.

Um dos whiskies favoritos para os “entendidos” picharem. “Uma mera sombra de suas versões passadas”, “de 10 anos para cá ele se tornou um chá com gosto de papelão molhado”, “você nunca vai saber o que é um Laphroaig de verdade se não bebeu uma versão dos anos 70” e por ai afora.

Eu me lembro quando levei meu primeiro murro na cara. POW! Você nem sente dor, só um calor se espalhando. O coração dispara, você não consegue respirar. Sua cabeça só consegue pensar PUTAMERDAPUTAMERDAPUTAMERDA. Você sente a pele em volta do nariz ficando grossa e dura, quando consegue respirar sente aquele gosto de ferrugem na garganta, a dor vem com aroma de sangue, o corpo todo formiga, as pernas ficam moles. Isso tudo em menos de 10 segundos.

A vida passa e você leva outros murros, só que ao invés de pensar “nossa! meus reflexos e experiências anteriores fazem cada novo soco ser menos traumático, parabéns para mim, estou mais perto de me tornar um Viking!” só cuspimos o sangue no chão e dizemos “franga, você bate feito uma criança!”

Acho que isso explica muito dessa atitude negativa em relação a single maltes hoje em dia, especialmente em relação ao Laphroaig, as pessoas perdem a capacidade de se maravilhar e partem do princípio que a surpresa vai ser parte do pacote. Mas se você está esperando uma surpresa ela, de certo modo, deixa de ser uma surpresa.

Laphroaig 10 continua foda.

Ele é descrito como “o mais saboroso de todos os whiskies escoceses” e apesar da linguagem hiperbólica não estão errados – obviamente existem outros whiskies tão saborosos quanto ou até mais, mas ele é delicioso.

Mais de 90% dos barris usados ​​na Laphroaig são barris de Bourbon first fill de carvalho branco americano – Quercus albas. Ian Hunter, O Ian Hunter, foi supostamente o pioneiro no uso desses barris na década de 1930. Hunter descobriu que os barris American White Oak proporcionavam exatamente o tipo certo de sabor que complementaria o seu single malte. A destilaria também usa barris quarter cask que são usados ​​na expressão Quarter Cask e em outras versões. Seus armazéns ficam à beira-mar no complexo da destilaria. Os barris são usados até atingirem um máximo de 30 anos no local – a não ser em expressões mais velhas como o Laphroaig 32 anos.

No nariz:

Ahhhh sim!!! Agora sim! Ai está o hospital queimando. Turfa por todo o lado, iodo, band-aids. Ele tem o cheiro que todas as caixas de primeiros socorros deveriam ter. Aquele cheiro de terra, mofada, antiga. Couro, mar… mais turfa, mais fumaça. Mas ele também é doce! Caramelo grudento com amendoim jogado num jardim em frente ao mar bravo. Sal… cheirando o copo você percebe que sal tem cheiro e é delicioso. Os 3% a mais de álcool – as versões européias tem apenas 40% – fazem uma diferença incrível.

Na boca:

POW! E ai está o murro na cara. Turfa doce e mar salgado envoltos em fumaça. Chocolate amargo apimentado coberto de mel. Um pedaço de pão coberto de açúcar mascavo que foi esquecido no forno até queimar. Alcaçuz, iodo, castanhas, terra. Tudo salpicado com um pouco de carvão. Viscoso, oleoso e delicioso.


Laphroaig Quarter Cask

Destilaria: Laphroaig
Tipo: Single Malt
Idade: NAS
Região: Islay
ABV: 48%
Preço: £32

Notas:

Este é um dos favoritos da galera que curte Laphroaig, alguns preferem este ao 10 anos. Na minha opinião o maior acerto desta garrafa são os 48% de abv. Qual a lógica de um quarter cask? Um barril normal tem capacidade para mais ou menos 200 litros de whisky, um quarter cask é menor, cabem 50 litros.

Agora se você desenrolasse um barril como um tapete e medisse a área de madeira e comparasse com a litragem, em um quarter você tem uma porcentagem maior de madeira para whisky, isso quer dizer que o whisky dentro dele tem mais madeira para ter contato e mais madeira para tirar sabores, aromas e tudo mais e isso cria um mito de que barris menores envelhecem whiskies mais rápido. Existem até tabelas de equivalência:

Barril de 200 litros

Proporção entre volume e superfície: 33

Leva 365 dias para envelhecer “1 ano”

Barril de 1 litro

Proporção entre volume e superfície: 206 (6.31 vezes mais do que o barril de 200 litros)

Leva 58 dias para envelhecer 1 ano de whisky

Mas isso é um erro. De fato barris menores passam sabor e cor mais rapidamente, mas o álcool continua novo. Em um barril de 1 litro em menos de dois meses você tem a bebida da mesma cor que um whisky de 1 ano, e ela tem muito mais sabor que um whisky que passou 2 meses em um barril de 200 litros, mas o álcool continua com 58 dias. Forte, presente, não maturado. Então o barril pequeno cria um problema, se você deixa a bebida nele por 1 ano o álcool amadurece, mas você vai terminar com um copo cheio de extrato de carvalho, imagine um copo cheio de Tanjal de madeira – ou groselha sabor madeira.

É por isso que usam os quarter casks para finalizar o whisky, não para envelhece-lho. E é isso que a Laphroaig faz, na verdade ela tem uma tradição, os tonéis quarter cask que vem sendo utilizados desde os primeiros dias da destilaria.

Os barris q.c. da Laphroaig são feitos se quebrando barris de Bourbon e reutilizando uma parte das aduelas. Esses novos barris então são usados ​​para maturação secundária, ou seja, o acabamento da maturação. O whisky que vinha sendo envelhecido em barris maiores é passado para esses menores onde matura por mais algum tempo, um subsequente período de envelhecimento para o whisky que já vinha amadurecendo em barris de Bourbon.

John Campbell, master distiller da Laphroaig, diz que o “Laphroaig Quarter Cask mostra uma influência mais intensa de Bourbon no barril, particularmente notas de toffee e caramelo, juntamente com carvalho mais seco e especiarias.”

Isso acaba mascarando algumas das notas de turfa e fumaça, que são menos intensas no Laphroaig Quarter Cask quando o comparamos com o Laphroaig 10 anos.

“Outra comparação é que os sabores do 10 anos aparecem no paladar de uma só vez, enquanto a maturação em um q.c. separa os sabores e cada um se mostra individualmente.”

Vamos ver se o John tem razão.

No nariz:

Turfa, hospital cheio de band-aids molhados, fumaça, o iodo aparece, um iodo salgado que se equilibra com cevada doce. Oceano cheio de salmoura, fuligem, terra molhada. De leve surge um aroma de couro, talvez um casaco de couro de alguém que passeou um uma floresta onde acabaram de apagar um incêndio. Frutos do mar em uma churrasqueira. O cítrico aqui vai mais para o lado das laranjas do que do limão, com toques de cardamomo – talvez canela? – e caramelo, tudo polvilhado por cinzas.

No nariz este whisky parece um trailer competente do Laphroaig 10, os aromas clássicos estão aqui, mais suaves e comportados, mas é a assinatura dele.

Na boca:

Whisky comportado. Não é leve mas também não tem aquela sensação oleosa de whisky que cobre e enche a boca. E então a turfa aparece com aquele sabor de peixe defumado em uma churrasqueira onde grelharam bacon algumas horas antes. Salmoura, fumaça, madeira torrada e doce. A cevada doce volta – não sei se de fato ou se por causa da memória do aroma – mas com essa sensação um pouco de mel, caramelos cobertos de terra e amêndoas aparecem para dar um oi. Pimenta, mais manteiga. Os 48% não são agressivos, mas se fazem notar. Acho que o álcool brilha mais no nariz do que na boca. As frutas do aroma são um eco aqui, desaparecendo rápido.


Laphroaig QA Cask

Destilaria: Laphroaig
Tipo: Single Malt
Idade: 10 anos
Região: Islay
ABV: 40%
Preço: £36

Notas:

O Laphroaig QA Cask foi lançado em 2013 para o mercado de de viagem – free shops – em uma garrafa de litro. Ele é parte de uma trilogia, formada também pelo PX Cask e o An Cuan Mor, que explorou a maneira como diferentes madeiras atuavam no espírito de Laphroaig. O QA foi primeiro envelhecido em barris de ex-Bourbon e finalização em carvalho americano – Quercus Alba, daí o nome – sem torra, o famoso carvalho virgem.

O resultado final é um Laphroaig extremamente leve, leve demais.

No nariz:

Um pouco de fumaça de fenóis, lembra um pouco pipoca queimada na cozinha de um hospital. Frutas cítricas, mas bem leves. Chiclete de tutti-frutti? Esse chiclete acaba se transformando em baunilha, os barris americanos vindo dar um alô. Palha molhada que pode ser também algas tímidas.

Na boca:

Neste Laphroig você sente um gosto leve de água com cascas de laranja. A baunilha está ai, junto com turfa, o doce vira um caramelo diluído, álcool com algas. Este também passa a impressão que após alguns minutos no copo começa a perder o sabor, isso reflete em uma finalização rápida que deixa um pouco a desejar.


Laphroaig Four Oak

Destilaria: Laphroaig
Tipo: Single Malt
Idade: NAS
Região: Islay
ABV: 40%
Preço: £45

Notas:

Ele é o resultado de um mix de whiskies que passam por 4 tipos diferentes de barris: ex-bourbon, quarter casks, barris americanos virgens e barris europeus tipo hogshead.

De novo soa com uma mistura um pouco de cada coisa, o que pode se revelar interessante. Mas de cara desaponta por ser bem mais caro do que o 10 anos e ter apenas 40% abv. Se estão colocando mais madeiras poderia ser interessante mais álcool para tirar mais sabor delas. Não é o caso aqui.

E como esse mix de barris influenciam a bebida?

No nariz:

No nariz dá para perceber que a bebida ai dentro é em sua maioria bem jovem, os aromas são leves, uma lembrança de mar um toque de fumaça. O aroma medicinal de caixa velha de band-aids, iodo, caramelo – que misturado com o mar faz lembrar de caramelo com flor de sal. O mel está de volta e escondido no meio disso tudo, mas na distância algumas maçãs. Os aromas estão distantes, tem certa complexidade mas parece que falta um pouco de personalidade. A turfa espreita incansável, mas não acerta um soco na cara de primeira. O vento que vem do mar distante tem um que de limões, talvez uma lembrança de capim limão. Uma mistura de terra e grama.

Na boca:

Eu tenho uma regra pessoal que se resume da seguinte forma: o aroma do whisky é uma promessa do que você vai encontrar quando beber. Se o aroma é complexo e envolvente o sabor tem que começar por ai, se não a experiência começa a ir morro a baixo. Neste Laphroaig é isso que acontece. A complexidade dos sabores perde bastante para a complexidade do olfato.

O paladar é no mínimo tímido. Ele tem os ecos da Laphroaig. A turfa é bem gentil e delicada. Demais… passa a impressão de que se a bebida ficar no copo por mais de 5 minutos os sabores vão começar a evaporar. O gosto de terra está lá, doce também. Algumas maçãs verdes, o cítrico distante e algumas especiarias, pimenta, noz moscada. O defumado também é tímido a complexidade primeiro parece não se desenvolver e depois parece não ter profundidade. O álcool fala mais alto. O maior problema deste rótulo é o preço. Se ele estivesse entre o Select e o 10 anos faria mais sentido. Mas é mais caro do que o 10 que é muito, mas MUITO, mais competente.


Laphroaig PX Cask

Destilaria: Laphroaig
Tipo: Single Malt
Idade: NAS
Região: Islay
ABV: 48%
Preço: £70

Notas:

Duas coisas chamam a atenção no PX Cask: o abv e o preço. Quando foi lançado ele chegava a custar 90, hoje caiu um pouco, mas ainda assim um preço alto. Parte deste valor justifica os 48% de álcool – um acerto por parte da destilaria – parte dele é a promessa do que ele pode oferecer.

Este whisky passa por três maturações antes de terminar na garrafa de 1 litro. A primeira é em tonéis ex-bourbon, depois disso ele passa um tempo em barris quarter cask e então vem a finalização em grandes tonéis de carvalho europeu, que originalmente continham xerez Pedro Ximénez – dai vem o P.X. do nome. Não sabemos quanto tempo ele passou em cada um desses barris.

A expectativa de um whisky finalizado em barris de xerez a 48% foi alta.

No nariz:

Bebida no copo, como no nariz e a turfa chega primeiro. Turfa medicinal. Todo Laphroaig deveria ser engarrafado a no mínimo 43% e preferencialmente com abe mais alto. Surge um pouco de caramelo não muito salgado – caramelo com um que de salsinha – carvão, anis e passas e então algo que no começo parece lembrar chá preto mas na verdade se mostra como vinho tinto, se um vinho pode ser suculento é desse tipo – pode ser o que acontece quando se mistura vinho tinto com carne defumada. O carvão ainda tem brasas de uma fogueira, frutas vermelhas mais uva.

Na boca:

A turfa e o doce se abraçam. O iodo medicinal está ai brincando com mel. É bem menos defumado na boca. Frutas doces – ou talvez um quê de geléia de frutas doces – o xerez vindo brincar com os outros sabores. Oleoso, enche a boca. O ardido do álcool lembraria pimenta se não fosse doce, acaba indo para o lado das especiarias, cravo noz moscada temperando óleo de motor. Quando engole isso tudo se mescla e começa a virar terra velha com madeira e alcaçuz. O álcool prolonga a finalização. Bem agradável, uma versão digna de um Laphroaig doce.


GET READY!

Sem suspense, o Laphroaig 10 é a base que acaba surgindo para se julgar os outros. O álcool presente nele é mais redondo, a turfa, o defumado, o sal marinho, o dulçor delicado. Está tudo lá, muito bem equilibrado. Ele é um daqueles whiskies que se você começa a cheirar não quer parar mais, perfume dos deuses. Tem a consistência perfeita, cobra a boca toda, tem uma finalização longa que dá chama novos goles – se você conseguir tirar o nariz do copo. Se tiver a chance de comprar não a perca e se tiver a opção de 43% abv agarre-a.

Em segundo lugar temos um empate: PX Cask e Quarter Cask. O abv alto deles ajuda muito a trazer mais aromas e mais sabor, criando uma complexidade muito boa em ambos. A finalização também é longa e pede mais goles. São um pouco menos agressivos do que o 10 anos e diferem no sabor pela finalização. Se você curte whiskies que passaram um tempo em barris de xerez o PX é o seu cara, se prefere um whisky mais adocicado e amendoado vá para o Quarter Cask. O único problema que surge entre eles é o preço, o PX custa mais do que o dobro e nesse aspecto ele perde alguns pontos de custo benefício. Sob esta ótica do peso no bolso o Quarter Cask chega na frente, eu escolheria comprar 2 garrafas do Q.C. ao invés de apenas 1 do PX (que acaba entregando basicamente a mesma experiência).

Seguindo no seu ritmo vem nosso terceiro colocado, Laphroaig Four Oaks. Pessoalmente eu o usaria como piso de qualidade se fosse o dono do whisky, mas não sou. O álcool novo e o abv baixo (40%) não ajudam muito, várias “arestas” tanto no sabor quanto no aroma são perceptíveis. O preço também não ajuda, mais caro do que o 10 anos e o Q.C. A variedade de madeiras promete um universo louco e maluco de complexidade mas no fim parecem não acrescentar em características muito marcantes.

Por fim, chegando por último, outro empate entre o Select e o Q.A. cask. Se o Select por um lado parece um samba do crioulo doido de todas as outras expressões – com um toque do 10 anos para não deixar a coisa sair do controle – o QA parece só um Laprhoaig que tiraram do forno muitos anos antes do tempo certo. Os dois são os mais sem graça da família e neste caso não sei se o fato do QA ser mais caro o colocaria no final da fila. Com certeza ele não entrega mais do que o 10 anos ou o Quarter Cask mas é mais caro do que ambos. Ele tem uma consistência maior do que o Select, mas também monótona, em ambos falta uma profundidade ou complexidade, mas o Select consegue ser honesto em seu preço, mas tem mais farpas e um acabamento mais rude e tosco.

Mesmo assim ainda digo que o pior Laphroaig tem qualidade, nunca recusaria uma dose, ou uma garrafa, de presente. Mas se fosse comprar uma garrafa entre as expostas aqui com certeza ficaria com alguma das 3 do topo da lista.


[*] Os valores mostrados são aqueles encontrados nas próprias destilarias ou lojas do Reino Unido. Se a bebida está disponível no Brasil também aparece o preço nacional. Eles sempre variam um pouco.

A ideia é criar uma base do valor agregado ao produto em seu país de origem.

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