Whisky falso

Outro dia um leitor do artigo Como Aprimorar Seu Olfato me perguntou “o que tu faz da vida além de escrever bloque de uísque?”. Sinceramente eu fiquei pensando um tempo antes de responder, começava a escrever, apagava, escrevia, apagava…

Fiquei indeciso na hora de responder porque qualquer resposta ia parecer uma aproximação grosseira que não faria jus à pergunta, para responder de forma exata eu teria que voltar no tempo, para uma banca de jornais, quando eu tinha uns 7 anos.

Estava folheando alguns gibis e o dono da banca soltou um cordial “Isso aqui não é biblioteca. Compra ou cai fora!”. Sem tirar os olhos da revista eu respondi que só estava vendo se era boa antes de comprar. “Revista não precisa ser boa. Compra, lê, guarda, se der sorte você vende por um dinheirão daqui a 30 anos”.

Com os “cai fora” eu já estava acostumado, mas aquilo de dinheirão era novo. “Como assim?” perguntei e nos dois minutos que se seguiram ouvi sobre como a primeira edição da revistinha do Super-Homem estava valendo mais do que um carro. Não me lembro se cheguei a comprar a revista que estava folheando, mas voltei para casa e fui conversar com meu pai.

“Mas por que vale tanto?”

“Por que é antiga, foi a primeira revista dele, quem gosta e quer guardar paga o que o dono pedir.”

“Mas por que não tiram cópias dela e vendem barato para todo mundo?”

“Porque uma cópia não é a mesma coisa.”

“ E por que não imprimem de novo? Se vale muito eles podiam vender cada uma pelo valor do carro!”

“Porque imprimir ela de novo não é a mesma coisa que a original, ela ia ser nova e custar o preço de uma revista normal.”

Pensei um pouco.

“Mas e se fizessem uma cópia nova que parecesse ser velha? Tipo, se usassem tinta velha, papel velho e tudo mais para deixar igualzinha?”

“Isso seria uma falsificação e não o original, e você pode ir preso se fizer isso!”, e assim terminou a explicação e, aparentemente, a paciência do meu pai.

Eu passei a noite em claro, no dia seguinte voltei a abordar meu pai no café da manhã, “mas se for idêntica?”, “se for o mesmo papel e mesma tinta ainda é falsificação?”, “por que vou preso?”.

Com a paciência renovada pela noite de sono – ou tentando esgotar o assunto para encerrar o papo – ele me explicou que “replicar” a revista não seria fácil, que a tinta da época tinha uma composição química diferente das de hoje, e que a tinta original provavelmente não existia mais, que provavelmente teria que refazer a tinta com materiais da década de 1930, que achar o mesmo papel era difícil, tinha que ser exatamente o mesmo, do mesmo lote – porque papéis diferentes seria identificados – e isso era a parte fácil!

Eles provavelmente não tinham mais os clichês que usaram na impressão, teria que fazer novos a partir da revista e isso não significava reproduzir o desenho, mas as falhas também. Se na página 2 uma linha estivesse cortada teria que reproduzir o erro, se na época os revisteiros desenhassem o preço na capa ou escrevessem algo, teria que imitar a letra dele. Depois me explicou como faziam para reconhecer os componentes de tinta, papel, caligrafia, etc. E terminou falando que provavelmente custaria mais caro fazer a falsificação perfeita do que simplesmente comprar uma revista original – além do fato que comprar a revista original não me faria ser preso.

Nem preciso dizer que as noites que se seguiram foram tão insones quanto a primeira.

O que diferenciava o crime da arte era a capacidade de alguém de diferenciar a falsificação do original? Haveria um modo de se copiar algo tão fielmente que o resultado final deixaria de ser um crime e seria tão bom quanto o original? Havia essa linha de perfeição que, uma vez cruzada, tornaria algo real?

No ano que se seguiu aprendi a assinar como meu pai e minha mãe, passei a andar com uma lente de aumento para ver que tipo de marca uma impressão deixava em livro, revistas e jornais, aprendi a copiar assinaturas de professores e a copiar a caligrafia de amigos, estava entrando oficialmente no mercado de ganhar dinheiro fazendo lição de casa para os outros. Eu tinha um caderno de logotipos e assinaturas, desmontava embalagens para ver como eram feitas e me tornei amigo íntimo da máquina de xerox da biblioteca.

O auge da minha carreira criminosa aconteceu na 4ª série, a cantina da escola funcionava com cupons, você ia para o caixa, trocava o dinheiro por cupons de diferentes valores e então trocava os cupons por lanches. Os cupons vinham em uma tira de papel comprida, uns 10 ou 15 por folha, separados por picote, tinham o logo do colégio, o nome da cantina, um campo para escrever o valor à mão e um campo para assinatura da “Tia do Caixa”.

Depois de três dias xerocando um cupons que eu comprei, usando pedaços de papel para tirar o valor e a assinatura – era feita com caneta azul ou preta – das cópias, comecei a treinar a caligrafia da “tia” para fazer igual, copiando assinatura. O picote dos cupons foi outro desafio. Foram um sem número de experiências usando compasso, serrote, pregos e até um cortador de pastéis da minha avó. Tesoura, estilete e guilhotina entraram na dança para cortar no comprimento correto e deixar as tiras retas. Terminei com uma folha com uns 6 cupons de valores diferentes, podia comprar uma mini pizza, um enrolado, dois refrigerantes e um salgadinho.

Com a obra pronta nas mãos fiquei olhando para o papel, sem nenhum critério além do meu para saber se estava bom, e ficava comparando com os cupons originais. Depois de considerar muito destaquei os papéis, amassei alguns, outros pus no chão e pisei em cima, um eu sujei de terra, amassei, estiquei e limpei com a mão. Fui para a cantina suando, e gaguejando consegui pedir a pizza, o refri e o salgadinho.

De noite quando meu pai chegou em casa me encontrou sentado na mesa esperando por ele. Chamei ele para conversar e expliquei o que tinha feito, achei que ia levar a maior surra da minha vida.

“Cadê a suspensão? O diretor quer falar comigo?”

“Não!” Eu respondi surpreso “ninguém descobriu, me deram a comida”.

Ele pediu para ver os outros cupons que eu tinha feito e o original. “Você sabe que só aceitaram porque não prestaram atenção, se te pegassem podiam te expulsar do colégio! O que te deu na cabeça?”, ficou um silêncio mais um tempo “Mas até que ficou bom… como você fez o picote? Olha como a folha que você usou é mais grossa que a deles, se não estivesse amassado eles iam ver na hora! A assinatura ficou boa, o valor não”.

Então olhou para mim e perguntou “por que você fez isso?”

“Eu só queria ver se conseguia.”

“Ótimo.”

Então me deu os parabéns, me pôs de castigo e me fez pagar os lanches. “Mas eu vou falar o que eu fiz?”, “Não! Você vai comprar com o seu dinheiro os cupons iguais aos que você passou e vai trazer pra cá e a gente vai queimar e você não vai mais fazer isso!”. E eu nunca mais forjei os cupons da cantina.

Acho que a partir dai, começar a trabalhar com gráficas, impressões, diagramação, programas gráficos, etc. foi uma evolução natural, eu acho. Design, marketing, redação e criação foram as formas de colocar isso em prática. Acabei não me unindo ao lado negro da força, mas meu interesse por “reproduções artísticas particulares” não desapareceu por completo apenas acabou pendendo para o lado mais “acadêmico”.

Com isso em mente respondi à pergunta sobre o que eu fazia da vida com um “designer, redator e cara-de-pau em marketing” .

Durante esses anos de estudos acadêmicos acabei separando o mundo dos “artistas independentes” em 2 grupos: os pilantras de trabalho porco que querem dinheiro rápido e aqueles que fazem o que fazem por amor à arte (e ao dinheiro também, é claro). Não que a veia artística os exima do que fazem, mas adicionam uma complexidade que eu acho fascinante.

2. Ars gratia Artis

Rudy Kurniawan nasceu em 1976 em Jacarta na Indonésia, em 1998 ele chegou aos Estados Unidos com visto de estudante e frequentou a Universidade Estadual da Califórnia. Na virada do milênio ele chamou a atenção quando começou a comprar quantidades enormes de vinhos raros, chegando a gastar mais de U$1.000.000 de dólares por mês em lotes de garrafas leiloados em 2006.

Foi nesta época que ele começou a organizar eventos de degustação de vinhos raros com outros colecionadores e ganhou a fama de ter “sem dúvida alguma a maior adega da Terra”. Eventualmente além de comprar vinhos em leilões ele começou a leiloar algumas de suas garrafas. Como era considerado um expert em vinhos com paladar e memória fora do comum, além de um anfitrião generoso e atencioso, suas garrafas foram recebidas de braços abertos pela Acker, Merrall & Contido. O leilão do primeiro lote atingiu o valor de U$10.6 milhões (U$13.4 milhões nos dias de hoje) e o segundo bateu os U$24.7 milhões (U$31.3 milhões hoje).

Na manhã de 8 de março de 2012 o garoto prodígio do vinho estava sendo preso pelo FBI em sua casa, em Arcadia. Quando os agentes federais revistaram sua casa, eles encontraram vinhos Napa baratos com notas indicando que seriam passados ​​como safras mais antigas de Bordeaux, rolhas, selos, rótulos e outras ferramentas envolvidas na falsificação de vinho. Ele foi indiciado por várias acusações de fraude postal e fraude eletrônica em Nova York em 9 de março. Investigações posteriores indicaram que Kurniawan estava comprando vinhos baratos, embora velhos, da Borgonha e engarrafando-os com rótulos de produtores e safras de prestígio.

Seu maior erro foi falsificar vinhos que não existiam, entre os lotes que ele estava leiloando havia garrafas do Domaine Ponsont da Borgonha, especificamente garrafas de Clos de la Roche 1929 e 38 e Clos Saint-Denis de safras entre 1945 e 1971. Quando ficou sabendo das garrafas, expostas no catálogo fornecido pela casa de leilões Nova Iorquina, Laurent Ponsot o herdeiro e proprietário do Domaine borgonhês pegou um avião para os Estados Unidos para interromper o leilão. Ele afirmou que os rótulos eram falsos e apresentou a evidência simples: até 1982, seu Domaine não produzia vinhos do vinhedo Grand Cru de Clos Saint-Denis e o Clos de la Roche só começou a ser produzido a partir de 1934.

Essa história virou um ótimo documentário entitulado Sour Grapes.

Cuidado, o filme contém cenas fortes de milhares de garrafas cheias sendo quebradas, falsas ou não isso dói!

O caso de Rudy chamou minha atenção porque ele não apenas enchia garrafas antigas de qualquer coisa, ele recriava vinhos – sensorialmente – e os colocava em garrafas originais, também imprimia rótulos (o que foi um dos motivos de ter sido pego) e criou uma reputação de expert para poder entrar com carta branca na cena dos vinhos ridiculamente caros. Ele era um artista, não apenas criava os vinhos como ficou por perto para ver sua criação circular e ser consumida. E ele também é um ótimo exemplo de como o ser humano funciona.

Se houvesse uma versão pilantra da Universidade de Harvard, voltada apenas para o crime, com certeza em suas aulas de economia os textos sobre a lei de oferta e procura seriam explicados mais ou menos da seguinte forma: quanto mais pessoas estão dispostas a pagar milhões em ítens raros, mais ítens raros devem “surgir” para serem oferecidos para o mercado!

Por isso, quando um bem se torna colecionável esses formandos começam a ficar eriçados.

3- A viagem no tempo mais curta da história

Em 2017 Zhang Wei saiu de férias para curtir um tempo com a avó, eles viajaram da China para a Suíça e ficaram hospedados no Waldhaus Am See em Saint Moritz, famoso por sua coleção de mais de 2.500 whiskies diferentes. Quando estava no bar do hotel, Zhang viu uma garrafa de Macallan datada de 1878, nas palavras dele “quando vi uma garrafa de bebida excelente com mais de 100 anos, não tive dúvidas. Minha avó tem 82 anos mas o álcool ali tinha 139, a idade da avó da minha avó.

Ele pediu uma dose. O gerente do hotel, Sandro Bernasconi, disse para Zhang que a bebida não estava à venda, mas foi se consultar com seu pai, que havia comprado a garrafa 25 anos antes quando era ele o gerente do hotel. O pai lhe disse “pode ser que se passem mais 20 anos antes de termos outro cliente como ele, venda!” e então Bernasconi e Zhang abriram a garrafa juntos e beberam. Zhang pagou aproximadamente U$10.000 dólares pela dose de 20ml.

Depois, como todo jovem antenado de 36 anos, postou fotos do evento em suas redes sociais dizendo: “respondendo a todos, tinha um gosto bom. Mas não era apenas o gosto, havia também a história contida nele.

Assim que as fotos e a notícia da dose de Scotch mais cara do mundo começarem a circular pela internet especialistas da industria do whisky começaram a estranhar alguns detalhes e discrepâncias presentes na rolha e no rótulo da garrafa das imagens. O hotel, que havia comprado e vendido a bebida de boa fé, enviou uma amostra para a equipe da Rare Whisky 101 que a analisou e chegou à conclusão de que o whisky dentro da garrafa não apenas havia sido destilado 100 anos depois da data impressa na garrafa, entre 1970 e 1972, como também era um blend composto de 60% malte e 40% grãos – de fato deveria ser um bom blend.

Quando recebeu o laudo, Bernascoli viajou para a China para dar a notícia e um reembolso para Zhang, que agradeceu sua honestidade. Para não deixar você morrendo de pena do jovem chinês vale dizer que ele é um escritor muito popular de histórias de fantasia em sua terra natal e que, apenas em 2015, faturou mais de U$16.8 milhões de dólares com elas.

Agora que deixamos isso claro, Zhang tem o perfil das pessoas que caem nesse tipo de golpe: muito dinheiro, se impressionam com a história da garrafa e pouco conhecimento de whisky. Muitas das pessoas que compraram os vinhos de Rudy também eram assim, muitos acreditavam que “entendiam” de vinho, mas beber galões e galões de vinho caro não é a mesma coisa que compreender a bebida.

Por exemplo, você está no bar de um hotel e dizem que a dose do whisky que você quer beber vai te custar uma paulada, ou você está em um leilão ou loja e se depara com uma garrafa que vai custar muito. Este detalhe do rótulo deveria chamar sua atenção: Reserva especial 1878, garantia absoluta de pureza por Roderick Kemp, proprietário da Macallan e Talisker, destilarias Ltda.

Kemp de fato foi proprietário tanto da Talisker quanto da Macallan, mas nunca ao mesmo tempo e ele só comprou a Macallan em 1892, dificilmente ele poderia garantir qualquer coisa sobre uma bebida engarrafada em 1878.

“Nossa, mas para comprar whisky tem que ser uma enciclopédia?”, bom, se eu fosse pagar U$10.000,00 em uma dose minguada de whisky eu ao menos pararia para consultar o Google ou o site da Macallan. Se fosse comprar uma garrafa avaliada em mais de £100.000 libras – a garrafa valeria mais de £227,000 se fosse autêntica – encontraria alguém que fosse uma enciclopédia para avaliar.

Mas às vezes até mesmo as enciclopédias falham.

4- Se você quisesse falsificar um whisky, o Macallan é o que você escolheria

O Museu do Whisky da Macallan em Craigellachie, Speyside, atrai entusiastas que vem dos quadro cantos do mundo para contemplar as garrafas de bebidas destiladas em 1800.

Em maio de 2004 o valor estimado da coleção sofreu uma defasagem, de £500,000 – ou R$3.9 milhões de Reais na cotação de fevereiro de 2021 – o valor das garrafas caiu para £10,000 – pouco mais de R$70.000 Reais – quando uma análise descobriu que os whiskies em seu interior haviam sido destilados em fins de 1980.

Falsificadores são como jogadores em cassinos, quando começam a ter sorte não conseguem parar de jogar e ficam mais ousados. Assim suas criações começam a ser oferecidas para as destilarias que supostamente haviam produzido e vendido as garrafas originais.

Em muitos casos, os arquivistas e especialistas das empresas sentiram que algo naquelas garrafas que estavam sendo oferecidas não cheirava bem. E uma simples verificação de fatos e inspeção detalhada nelas confirmou as suspeitas: rótulos com a palavra “strength” grafada incorretamente – o tipo de erro gramatical cometido por alguém que não falasse inglês – uma garrafa de Talisker do século XIX ostentando um desenho da fachada da destilaria que mostrava a chaminé de metal que havia sido instalada apenas em 1960.

Mas houve aquelas cujos olhos brilharam quando se depararam com o que poderia ser parte da própria história e, com o mercado de whiskies antigos crescendo, essas garrafas eram como medalhas comemorando suas vitórias passadas – eram prêmios incríveis.

Entre 2000 e 2002 a Macallan adquiriu cerca de 100 garrafas antigas, algumas em leilão outras de colecionadores particulares. Chegaram até a publicar o livro The Definitive Guide to Buying Vintage Macallan – O Guia Definitivo para Comprar Macallans Antigos – com um capítulo dedicado às garrafas do século XIX e a chance de comprá-las em leilão no site da Macallan.

a Macallan ofereceu esta garrafa em leilão com preço de reserva de £8,500

Foi então que a empresa anunciou planos para lançar uma linha ‘Replica’ de single maltes com base no sabor e na embalagem de algumas das garrafas. Foi apenas quando o conteúdo de uma das garrafas datadas do século XIX foi cerimoniosamente recolhido com uma seringa é que perceberam se tratar de uma fraude: era óbvio para todos na sala que aquele whisky não era velho.

As garrafas foram enviadas para a Universidade de Oxford, onde passaram por testes de datação por radio-carbono, que mostrou que a bebida em algumas delas tinha apenas 10 anos de idade.

David Cox, o diretor de whiskies finos e raros da Macallan à época, declarou que o resultado dos exames foi “um enorme desapontamento, não apenas para o mercado de garrafas antigas mas para a indústria de bebidas como um todo“. Eles acabaram não abrindo um processo criminal, de acordo com Cox “as pessoas de quem os compramos não estão no ramo do ‘refil’ de garrafas, são pessoas respeitáveis. Em algum momento ao longo do tempo, eles adquiriram garrafas por meio de outra empresa ou diretamente por meio das pessoas que as enchiam. Se conseguíssemos reunir provas suficientes contra os autores deste golpe, então consideraríamos iniciar um processo penal, mas será extremamente difícil encontrar provas suficientemente sólidas para podermos instaurar um processo penal contra eles”.

A Macallan decidiu manter as garrafas – aproximadamente 100 – em exposição depois que testes realizados no vidro e no papel dos rótulos constataram que eles datavam da época, apenas em 2017, quando o caso de Zhang Wei se tornou público, é que algumas das garrafas do século XIX foram removidas da mostra.

Charles Maclean, famoso entre os entusiastas de whisky – se você não for um ainda, pode-se dizer que ele é um escritor e pesquisador que tem como tema, e obsessão, o whisky escocês – já disse que “se você quisesse falsificar um whisky, o Macallan é o que você escolheria, porque é de longe o whisky mais colecionado“, é uma ótima dica mas o Macallan não é o único whisky que atrai os aficcionados.

5- A garrafa mais antiga do whisky mais novo de Islay

Em 2016 o pessoal da Rare Whisky 101 (RW101), a mesma que fez a análise da garrafa comprada pelo hotel da Suíça, diz que descobriu uma garrafa falsa de Laphroaig 1903 que, se fosse legítima, poderia atingir o valor de £100.000 – e dois conjuntos falsos de Macallan Fine e Rare, um no valor estimado de £500.000 e o outro no valor cerca de £250.000.

A RW101 comprou a garrafa de Laphroaig 1903 – que se acreditava ser o Laphroaig mais antigo existente – em leilão no ano passado e embarcou em uma série de testes forenses de seis meses para verificar sua autenticidade: datação do vidro, avaliação da cortiça da rolha e da cápsula, avaliação organoléptica do líquido (as características que podem ser percebidas pelos sentidos humanos, como a cor, o brilho, a luz, o odor, a textura, o som e o sabor), análise de compostos derivados da turfa e análise para verificar se o whisky era um malte ou blend. Também fizeram datação por carbono na Universidade de Oxford e concluíram que havia 75% de chance do whisky – que acabou se revelando um blend – ter sido destilado entre 2007 e 2009, mais de um século após sua suposta data de destilação.

Andy Simpson, cofundador da RW101, disse que “desde o início tínhamos nossas suspeitas, mas os testes forenses nos permitiram examinar cada um dos componentes. Apesar de uma estética muito convincente, nossa garrafa, que já circulava em leilões há alguns anos, era certamente uma falsificação e possivelmente o blend jovem mais caro do mundo.

Além do Laphroaig a RW101 adquiriu outras 55 garrafas de whisky escocês de diferentes fontes através do mercado secundário e descobriram que quase metade delas (21 garrafas) foram confirmadas como falsificações definitivas ou whiskies não destilados no ano declarado. Todas as amostras de whisky de malte datados de 1900 ou anos anteriores foram consideradas falsas.

Aparentemente algo estava assanhando os falsificadores.

No dia 2 de fevereiro de 2017 um homem de 41 anos foi preso pela Polícia Metropolitana de Londres – a famosa Scotland Yard – por suspeita de cometer fraude por falsa representação, em um endereço em Finchley, Londres N1. Neste caso “fraude por falsa representação” significa “uma tentativa de vender centenas de milhares de libras de bebidas falsas em leilão em uma operação nunca vista em tamanha escala antes”.

A Polícia Metropolitana disse: “Detetives do Comando do Crime Organizado estão investigando uma alegação de fraude envolvendo whisky falsificado. A ofensa envolve suposto whisky vintage vendido em leilões em garrafas falsificadas e contendo destilados não vintage.

A coisa toda veio à tona quando Isabel Graham-Yooll, diretora do Whisky.Auction notou várias garrafas falsas de whisky sendo submetidas a leilão em meio a lotes de garrafas legítimas, parecia que estavam testando os especialistas para ver as garrafas passariam desapercebidas.

Isabel ficou desconfiada e marcou uma visita para conhecer a coleção e comprar algumas das garrafa. “O que vimos na propriedade foi uma coleção significativa, centenas de garrafas, de líquidos supostamente valiosos que, se fossem genuínos, provavelmente não estariam disponíveis em tal escala. Este foi um alerta imediato e nossas dúvidas foram justificadas quando começamos a examinar as garrafas individualmente. Foi só quando realmente examinamos as garrafas que percebemos coisas, como se os rótulos não parecessem certos, a cor do líquido não parecia exatamente igual a dos outros ou o nível do líquido estava um pouco mais alto do que você esperaria para uma garrafa daquela idade ou produtor.

Ela agradeceu pela visita, elogiou o tamanho da coleção, disse que entraria em contato e assim que saiu notificou a polícia que mais tarde a convidou para ajudar na investigação. Assim como no caso de Rudy, quando entraram na casa se depararam com uma variedade de parafernália utilizada para encher e lacrar garrafas vazias.

Mais tarde ela disse que as falsificações descobertas pela equipe do Whisky.Auction eram “falsificações de qualidade excepcionalmente boa” e difíceis para um olho destreinado detectar. “Falsificações surgem ocasionalmente, assim como obras de arte, e uma falsificação de boa qualidade é mais difícil de identificar“, explicou ela. “Você precisa de especialistas para identificá-los.

Assim como o discurso da RW101 o da Whisky.Auction faz sentido, ainda mais se você pensa em propaganda. Um mundo cheio de gente querendo gastar, ou investir, é bom tanto para falsificadores quanto para pessoas prontas para identificar fraldes. Afinal não temos como saber quando uma garrafa cara pode ser falsa, ou temos?

Vamos deixar de lado a ideia de “balança a garrafa para ver se faz espuma”.

Sem acesso a máquinas de cromatografia ou medição de carbono-14 ou qualquer outro tipo de maquinário científico temos que desconfiar. O pior é que mesmo os exames mais simples podem não ser conclusivos. A Ardbeg é famosa por ter lacres frouxos em muitas garrafas – nunca tire um Ardbeg da caixa puxando apenas pela capa protetora da rolha . Imagine que você compra uma garrafa de Ardbeg Uigeadail datada de 2003, a data de seu lançamento, abre a caixa e o lacre fica solto em seus dedos. O maior problema neste caso é que alguém pode ter comprado a garrafa vazia com a embalagem, enchido de um Uigeadail novo e vendido como se fosse antigo.

O conteúdo da garrafa é legítimo – Ardbeg Uigeadail – só que de um batch mais novo. Uma garrafa da bebida recém destilada custa £60 libras, a garrafa da época do lançamento pode conseguir fácil £300 libras em um leilão. Processos de datação não são tão precisos assim para uma década ou duas. E ai, falso ou não?

É por isso que várias pessoas ligadas ao mundo do whisky costumam ficar de antenas em pé para o mercado paralelo de bebidas em uma espécie de rede informal de “antifalsificações”.

A conta de twitter do The Whisky Investor, por exemplo, já publicou avisos como:

Black Bowmore de 42 anos, alerta de falsificação.

Um antifalsificador gentil e observador apontou isso. Mais de 800 euros pagos pela garrafa e embalagem vazias há alguns dias. Certamente a única razão pela qual você paga tanto dinheiro por uma garrafa vazia é para reabastecer e selar novamente… a menos que alguém queira um castiçal impressionante para uma refeição no dia dos namorados!

É a garrafa número 55 para o caso de ser vista em um leilão perto de você!

Outra dica de leitura é a sala de guerra do site whisky fun, eles pararam de atualizar seu material em 2009, mas a leitura até a data é fenomenal, levantado garrafas suspeitas, lista de nomes de pessoas suspeitas e dicas para comprar com relativa segurança.

Whiskeiros do mundo: uni-vos! Sempre me dá calafrios quando estou zanzando pelo mercado livre e vejo garrafas antigas vazias “em perfeito estado” sendo vendidas. Entendo o entusiasmo de alguém diante de uma “garrafa unicórnio”, especialmente quando tem o dinheiro para gastar nela. Garrafas raras costumam ser… raras. Quando começam a aparecer várias delas algo não está certo. Mas um pouco de bom senso poderia evitar dores de cabeça, bom senso e também boa memória.

6- 1990, a década da falsificação

Não é preciso ser um gênio para perceber como os veículos de comunicação funcionam, anunciam que um empresário ficou louco e jogou tubarões em uma piscina durante as olimpíadas e na sequência os benefícios da dieta do capim limão.

Quando começaram a surgir essas falsificações em 2004 a mídia caiu em cima mas logo depois achou mais interessante noticiar preocupações reais do mundo do whisky como as novas edições NAS sendo lançadas e enxofre na bebida: amigo ou inimigo!

Assim, quando acontece um evento sexy como a dose de U$10.000 de Zhang Wei e o caso ainda calha de ser uma falsificação, a mídia cai em cima e todos se impressionam. Depois de um mês tudo é esquecido, mas para alguém com memória este caso não foi uma excessão, muito pelo contrário: seria incrível se aquela garrafa não fosse falsa.

Somente entendendo há quanto tempo as falsificações são comuns e, embora possa parecer estranho, toleradas, é que temos uma perspectiva adequada da escala do problema.

Os whiskies falsos começaram a surgir em grandes volumes em leilões na década de 1990, a princípio parecia que a chegada de grandes números de garrafas raras nos anos 90 era simplesmente uma consequência do aumento da procura por elas e dos preços subindo em conformidade: se tem mais gente comprando comprando aquele Port Ellen da década de 1940, vamos colocar à venda aquelas garrafas da coleção do vovô.

Mas o que era espantoso era o número de garrafas do século 19 ou início do século 20 em perfeito estado que começaram a aparecer. E não eram garrafas de diversas destilarias, um Macallan, um Talisker e dois Glenlivets mas múltiplas garrafas do mesmo uísque, com seus rótulos no mesmo estado excelente de conservação.

Charles Maclean se lembra que “muitas pessoas dentro da indústria ficaram surpresas na época, embora no passado pudesse ter aparecido uma garrafa ocasional em um ou outro leilão, de repente parecia haver um fluxo constante de garrafas antigas e obscuras que ninguém havia visto antes.

Algumas eram de whiskies de destilarias estabelecidas – Macallan, Bowmore, Laphroaig, etc. – mas muitas eram de destilarias cujos produtos nunca haviam sido vistos. E as garrafas não estavam aparecendo do nada, elas deixaram um rastro.

O dedo geralmente aponta para a Itália; pode ser terrivelmente cruel dizer isso, mas os italianos são mestres na falsificação. Desde os tempos clássicos, com grandes peças de arte, há uma longa e heróica história de falsificações. Mas isso é muito azar, pois uma boa falsificação é quase impossível de detectar, especialmente se o falsificador estiver usando garrafas originais e as reabastecendo.

Era comum conhecer alguém no início dos anos 2000 com acesso a esse tesouro. Um colecionar da época disse que “era quase bom demais para ser verdade. Tive uma pessoa dizendo: ‘posso conseguir o que você quiser’“.

Foi nesta época que a Macallan adquiriu sua coleção.

Mas ninguém desconfiou? Maclean disse que sim, mas os especialistas eram freqüentemente ignorados e até mesmo difamados. Para deixar tudo mais divertido, alguns colecionadores compraram garrafas sabendo que eram falsificações. “Afinal de contas“, diziam na época, “até um Van Gogh falso vale dinheiro!” Como resultado, mais falsificações apareceram.

Para entender porque a década de 1990 foi um solo tão fértil para falsificações precisamos precisar da ajuda do Super Homem, de um pouco de chiclete e algumas figurinhas de baseball.

7- Nada como uma boa morte para movimentar o mercado

Em 1993 o mundo acompanhou a notícia de que a DC iria publicar a história da morte do Super-Homem. Nos Estados Unidos a história foi publicada na revista Superman #75 e criou um interesse nunca visto antes em quadrinhos.

O kriptonianao surgiu a primeira vez na revista Action Comics de 1938. Em 1974 você conseguia comprar uma cópia da revista por mais ou menos U$400 dólares – U$2.124 dólares hoje. Em 1984 a revista já estava sendo vendida por U$5.000 dólares – U$12.600 dólares atuais ou “mais do que um carro” na conversão do jornaleiro que conversou comigo. Isso já era considerado muito dinheiro para uma simples revistinha que estava circulando em casas de leilão como a Christie ou a Sotheby.

Quando chegou dezembro de 1991 e a Detective Comics #27 – a primeira aparição do Batman – atingiu o valor recorde de U$55.000 os jornais enlouqueceram, noticiando a história da HQ mais cara do mundo, uma notícia que logo ficou obsoleta quando alguns meses depois o Super-Homem passou a dianteira do homem morcego e a Action Comics atingiu o valor de U$82.000 apenas para bater um novo recorde absolutamente ridículo em 2014: U$3,207,852 em um leilão no eBay.

Uma maneira de compreender como um pedaço de papel sem valor chega a ser negociado por esta quantia é olhando para outro pedaço de papel sem valor.

Em 1983 foi lançado aqui no Brasil o chocolate Surpresa, produzido pela Nestlé. O chocolate vinha com uma figurinha de bicho dentro, uma girafa ou leão ou dinossauro com uma descrição do bicho, como você reagiria se casas de leilão começassem a vender a figurinha do leão por R$300.000? Parece loucura, mas nos Estados Unidos foi isso que aconteceu.

1 por R$9, 5 por R$20 ou 6 por R$40 dependendo do vendedor no mercado livre

Nos anos 1950 lançaram no mercado americano um produto que visava promover dois hábitos extremamente saudáveis: baseball e chicletes. Cada pedaço de chiclete vinha embalado com uma figurinha que fazia parte do mundo do Baseball e assim como o Surpresa era algo banal e não havia um mercado colecionador para elas assim, com o tempo, elas eram jogadas no lixo. Essa fase da história é interessante porque esse descarte foi responsável por tirar de circulação a maior parte das figurinhas.

E então começam a surgir os esquisitos, aquelas crianças que não jogavam fora as figurinhas e as colecionavam. Quando chegaram os anos 1980 essas crianças esquisitas haviam se tornado adultos esquisitões, que se reuniam em eventos para exibir e completar suas coleções. Na época era comum fecharem quartos de hotéis, anunciarem nos jornais locais quem eram e onde estavam e dizerem que compravam figurinhas de baseball pagando em dinheiro. Eram como um clube de whisky itinerante, só que formado por esquisitos, e a ideia deles foi genial: quem tinha figurinhas em casa corria para vendê-las, mesmo que por centavos.

Os colecionadores, desta maneira, conseguiam passear e pagavam migalhas pelas figurinhas que surgiam e as compravam aos montes, afinal eram figurinhas velhas sem valor e quem estava comprando eram tiozões de meia idade querendo completar suas coleções.

Só que um desses tiozões era um estatístico chamado James Becket que, como todo bom estatístico com tempo livre demais nas mãos, começou a fazer uma pesquisa com seus colegas colecionadores sobre os preços que estavam pagando pelas figurinhas. Ele compilou os dados, produziu um guia definitivo de preços para os colecionadores e, de quebra, criou um mercado novo.

O New York Times começou a notar os esquisitos quando cartões de beisebol começaram a aparecer em casas de leilão, ao lado da Action Comics. Entre 1985 e 1991, o santo graal dos cartões de beisebol, um Honus Wagner de 1909, ganhou os holofotes quando seu valor pulou de $ 25.000 para $451.000 dólares em um leilão – e então não eram mais apenas as figurinhas que vinham com chiclé, havia colecionadores para todo e qualquer tipo de cards.

De repente as pessoas começaram a vasculhar suas casas por figurinhas antigas. Ninguém sabia se estava sentado em cima de um tesouro e isso começou a criar um interesse em se colecionar as novas figurinhas que estavam sendo impressas na época, afinal ninguém sabia se elas poderiam ou não virar futuros tesouros e essa é a receita para se formar uma bolha especulativa.

8- O que os quadrinhos me ensinaram sobre economia e o mercado de whisky

Economistas que estudam os mercados de bolhas identificaram 3 características comuns a todas elas:

  • A primeira condição para um mercado de bolha começar sua vida é uma explosão de entusiasmo baseada em retornos reais sobre o investimento. Então é medida a escassez de uma mercadoria para determinar seu valor. Se essa mercadoria for escassa o suficiente para gerar um retorno real, as pessoas começarão a entrar naquele mercado em busca de lucro.
  • À medida que mais pessoas entram no mercado, a consciência sobre ele aumenta. Normalmente é através do boca a boca e por meio de investidores especializados nesse tipo de coisa. À medida que a conscientização se torna mais e mais popular, a mídia de massa se apega a esse mercado e relata para o mundo o que e quanto ele está movimentando, o que adiciona lenha à fogueira e traz mais pessoas ao mercado, criando liquidez. Quanto mais pessoas entrarem, mais liquidez permitirá aos investidores iniciais uma oportunidade de virar suas commodities e obter um lucro rápido e normalmente inflado.
  • Finalmente, o influxo de pessoas e a liquidez cada vez maior de um mercado em bolha colocarão pressão no lado da oferta da matriz, exigindo mais produtos para os recém-chegados comprarem. Nem todo mundo terá condições de participar do segmento alto da economia de bolha, mas a demanda ainda pode ser atendida e alimentada pela criação de níveis no mercado para atender a diferentes rendas. Em última análise, isso leva os produtores no mercado a fazer mais e mais commodities para atender à demanda e, no processo, desvalorizar e minar seu próprio mercado.

Quer se esteja falando sobre a bolha do mercado imobiliário dos anos 2000, a bolha do mercado de ações em meados dos anos 1990, ou mesmo a bolha dos colecionadores de figurinhas e quadrinhos do início dos anos 1990, todas as bolhas compartilham essas três características.

Confuso? Então vamos traduzir para o Kryptoniano.

Quando o New York Times começou a atrair a atenção do público para os valores de venda das revistas do Super-Homem e do Batman um monte de pessoas que estava começando a ganhar dinheiro pensou que as revistinhas seriam um ótimo investimento, só que elas tinham dinheiro de mais e conhecimento de menos.

Da noite para o dia o mundo dos quadrinhos passou a ser envolto em “investimentos nostálgicos”, à medida que a galera nascida logo após a 2ª Guerra – os baby boomers – que estavam entrando em seu potencial de ganho de renda principal começaram a gastar dinheiro em itens que lhes permitiram recapturar parte de sua juventude.

A mídia ajudou com essa nova mania, constantemente relatando histórias de pessoas enriquecendo com suas coleções. Com jornais tão veneráveis ​​como o Wall Street Journal anunciando a coleção de figurinhas como um “investimento sólido” e com figurinhas e quadrinhos rendendo somas de cinco e seis dígitos, quem poderia contestar isso?

A década de 1990 também foi uma década promissora, a economia americana que anos antes estava com indicadores ainda piores do que os da grande depressão, começava a se aquecer. Se foi a guerra do Golfo, ou o início das empresas “ponto com”, ou leis de telecomunicações, ou explosão tecnológica do vale do silício – tudo junto ou separado – as pessoas começavam a ver dinheiro alto correr a torto e direito, dinheiro que elas podiam rasgar ou investir em algo muito mais promissor.

Naquele então as hq’s se tornaram uma das ondas em que todos queriam surfar e quando anunciaram que a DC Comics iria matar o Super-Homem todos os bolsos tiveram ereções. Se a primeira aparição de Kal-El valia na época mais de U$82.000 dólares, quanto valeria em algumas décadas sua última história? Com certeza seria uma edição épica, memorável e valiosa.

As pessoas saíram feito loucas comprando e estocando a publicação, mas não apenas ela, a Marvel e a DC estavam lançando novos arcos de histórias de seus heróis clássicos iniciando todas do número 1, como OS X-Men de Jim Lee, por exemplo. Assim o mercado foi inundado por revistas número 1 de personagens famosos, imagine a gaiola das loucas cheia de cocaína, todos queriam edições número 1, se fossem heróis desconhecidos melhor ainda, seria a primeira aparição do herói, como a Action Comics. Começaram a surgir publicações que catalogavam os valores das revistas, valores que subiam a cada nova edição.

O problema é que quando a primeira Action Comics foi publicada, ela teve um número “normal” de publicações e a editora seguiu seu caminho, nos anos 1990 quando viram que as tiragens estavam vendendo como nunca, as editoras publicavam novas edições. Uma prática comum da época era um revisteiro comprar 200 edições de uma revista, colocar 10 na prateleira – que sumiam mais rápido do que pão quente – e então colocavam placas de ESGOTADO para todos verem. Alguns dias depois, quando você passava na banca, o revisteiro se aproximava de maneira conspiradora e dizia: “ei… psiu… eu consegui falar com um cara que conhece um cara… se quiser ainda aquele gibi, consigo por 30 ou 40 pratas…”. Houve épocas e lugares onde a revista da morte do Super-Homem aparecia em revisteiros por U$200 dólares. E as pessoas pagavam.

Logo as editoras começaram a lançar edições de luxo, edições comemorativas, edições com coleções de história que haviam publicado no ano anterior. Assim essas edições cobiçadas ganhavam nova roupagem ano a ano. Diferente das edições do passado que rareavam, as novas se multiplicavam.

Como eu disse: dinheiro de mais e conhecimento de menos. Será que alguém gastaria R$200 dólares na revista da morte do Super-Homem se soubesse que ele já havia morrido 12 vezes nos quadrinhos? A DC já o havia “matado” em 1944, 1950, 1957, 1958, 1961, 1962, 1963, 1966, 1968, 1984 e DUAS VEZES em 1987. Sempre que queria aumentar vendas ou tapar algum buraco financeiro Clark vestia o paletó de madeira. Mas aparentemente ninguém dava importância para isso. Qualquer Nerd esquisitão com armários cheios de quadrinhos já estava acostumado com isso, com edições número 1 de personagens, com revamps de personagens antigos e tudo isso. Era o dia a dia de um leitor aficionado.

Vocês todos devem guardar este segredo! SUPER-HOMEM morreu… mas antes de morrer ele me construiu para assumir seu lugar!
A terceira morte oficial do Super-Homem, hoje avaliada em U$750.

Mas para esse pessoal novo tudo era muito intenso, quase violento. “Nova edição anual dos X-Men com 4 capas diferentes!”, era a mesma história e só mudava a capa, as pessoas se rasgavam para conseguir as 4 edições e o engraçada é que muitos nem liam o que compravam, apenas estocavam embrulhado em plástico anti acidez e ficavam discutindo para ver quem se mostrava o melhor connoisseur de quadrinhos.

Assim que foi lançada, a revista número #1 do Spawn sumiu das bancas em instantes e ressurgiu dias depois custando U$75,00 dólares. E as pessoas pagavam, aquilo era o investimento do futuro.

passa o dinheiro, otário!

Superman # 75, a edição da morte, registrou a maior venda em um dia de uma história dos quadrinhos, com quase três milhões de cópias sendo impressas na primeira tiragem e seis milhões quando depois em reedições. As edições de “Reign of Supermen” – ou O Retorno do Super-Homem (tinha alguma dúvida de que ele voltaria?) – que compõem a parte do meio da longa história vendeu mais de um milhão de cópias por semana, mês após mês, por meses.

O interesse gerado pelos leilões da Action Comics e Detective Comics, juntamente com o apelo de massa de Superman # 75 e X-men # 1 – entre outros – alimentou uma explosão de tiragens e editoras. Infelizmente, essa explosão foi construída tendo como base consumidores não pretendiam acompanhar as publicações por muito tempo e nem estavam comprando por amor às revistas – sequer as liam.

Mas e os colecionadores sérios? Bem, nós… quer dizer, eles já estavam acostumados com essas mortes e retornos de heróis, assim como com o lançamento de títulos próprios de heróis que por um motivo ou outro ficavam populares. Eles eram amigos de revisteiros, que estavam vendo retornos substanciosos pela primeira vez, e seus conselhos, assim como os dos especialistas de whiskies sobre o súbito aparecimento de garrafas raras, eram ignorados.

Não demorou muito para que as pessoas percebessem que estavam acumulando coleções que não seriam capazes de garantir uma aposentadoria, mal garantiriam uma balada no fim de semana. A grande maioria desses novos investidores não estava procurando suas revistinhas no mercado secundário (leilões e sites), mas sim comprando novos lançamentos no mercado direto (nas bancas e lojas especializadas), que estava sofrendo com a forte inflação dos especuladores.

No final das contas, tudo se tornou muito difícil para o mercado suportar e a bolha estourou de forma inevitável e previsível. Revistas que tinham tiragem de milhões de exemplares em poucos meses foram descontinuadas, pessoas olhavam para caixas cheias de HQ’s que não valiam o peso do papel em que haviam sido impressas e as edições que publicavam o valor de outras revistas traziam números que ninguém estava disposto a pagar.

Revisteiros que tinham estoques de revistas “esgotadas” perderam público e, eventualmente, milhares de lojas de quadrinho fecharam, quase todas as novas editoras que surgiram na época abriram falência e as grandes do ramo viram suas receitas, que haviam atingido o valor de U$900.000.000 no auge da loucura, caírem para R$300.000.000 no final da década e de brinde ficaram com as dívidas da especulação. Se não fosse pela incursão nas telas de cinema e animações, provavelmente estariam falidas.

9 – Mudando da água para o whisky

A vida imita a arte, o whisky os quadrinhos, todos eles as figurinhas… Quando os valores de algum desses objetos viravam notícia atraíam um público interessado em participar da festa, esse público inflacionava esses valores e os falsificadores não aguentavam ver tanta gente com dinheiro em uma mão e um lenço na outra secando as lágrimas por não achar aquela garrafa rara.

Se quer um exercício instrutivo releia os últimos dois capítulos substituindo palavras como figurinhas, hq’s, revistinhas por garrafas e Super-Homem e Batman por Macallan e você tem uma visão bem próxima da do mercado de whisky atual. Cada personagem que ganhava novos títulos próprios me soa assustadoramente familiar como as várias novas garrafas NAS lançadas pelas destilarias tentando capitalizar ao máximo a prata – e o alumínio e a madeira – da casa.

E assim como o mercado dos anos 1990 parece que estamos criando – ou já vivendo dentro de – uma bolha que está inflacionando. E assim os bons samaritanos que adoram reciclar garrafas antigas ressurgem.

Me lembro de quando assisti em 2014 aos episódios da destilaria Daft Mill na Single Malt TV, ainda não haviam liberado nenhuma garrafa para o público. Ela era, na época, a mais nova e menor destilaria escocesa, fiquei curioso e fiz uma nota mental de procurar uma garrafa quando a lançassem no mercado em 2017 ou 2018.

Estamos em 2020, procure uma garrafa para comprar. Se você segue as datas de lançamento tem alguma chance de se assustar com o valor, mas alguns dias depois elas somem, mesmo sendo uma destilaria pequena com produção reduzida é assustador. As garrafas estão sendo engolidas por colecionadores e seus preços estão subindo – e este é um whisky novo, produzido em 2005, 2006… e já entrou na roda da especulação como futuras raridades. E por que as pessoas fazem isso?

Vamos voltar no tempo para 1996 e dar uma olhada na Macallan Private Eye. A Private Eye é uma revista – a revista de atualidades e notícias número um do Reino Unido, ou é como eles se denominam – que em 1996 completou 35 anos de existência, para comemorar ela encomendou uma garrafa especial com a Macallan para oferecer a seus leitores. As garrafas, 5000 ao total numeradas individualmente, continham whisky destilado no ano de lançamento da publicação, 1961.

A revista lançou seu whisky cobrando £36 por garrafa. 11 anos depois, em 2007, ela estava sendo leiloada por £240 e em 2017 por £1.500. Em outubro de 2018 a Private Eye atingiu o seu teto, sendo leiloada por £4.000 – ou com um ROI de 11,000% na linguagem dos investidores.

Claro que como várias dessas garrafas começaram a surgir seu valor teve uma pequena queda, até maio de 2020 você conseguia comprar uma por £3.500.

Imagine a chance de comprar algo que tenha esse tipo de retorno sobre o investimento (ROI). É combustível para a especulação, e quando a especulação surge…

Em 2007 uma segunda geração da máfia italiana voltou a dar as caras e seu campo de atuação foi a internet.

O Ebay trouxe a emoção das casas de leilão para o grande público, todo mundo com acesso à internet podia dar lances em produtos e objetos. Desta vez a atenção de mídia vinha para ações onde um produto valioso era posto à venda com um lance inicial muito baixo. A Action Comics vendida por U$3,207,852 foi oferecida com um lance inicial de apenas 99 centavos – e levou apenas duas horas para atingir o valor de U$1.6 milhões.

Mas quando o assunto é whisky, ou qualquer outra bebida alcoólica, a primeira coisa que você precisa saber é que você pode vender uma garrafa de uísque online, mas não pode vendê-la em pessoa. Você tem que usar um canal que tenha as licenças devidas para o comércio de álcool, isso ocorre por um motivo simples, mas importante:

O álcool é uma droga controlada e sua venda é altamente regulamentada pelo governo.

Resumindo, você não pode vender whisky no eBay e se o fizer e for pego vai responder por processo criminal.

Algumas pessoas muito motivadas ainda usavam a plataforma para vender suas garrafas, um exemplo eram as que estavam sendo vendidas na sessão de Colecionáveis> Garrafas e isoladores> Garrafas> Moderno (1900-agora)> Whiskeys: Tampa de Rosca. Mas em 2014 eles criaram uma política de banir álcool de seu inventário e apenas em 2018 voltou a permitir que certos varejistas listassem seus whiskies para venda mais uma vez, mas cada varejista teve que passar por um processo de seleção rigoroso.

Eu sempre gostei do pragmatismo de Groucho Marx . Certa vez ele disse “você sabia que tem um milhão de pratas escondido na casa ai ao lado?” e quando lhe disseram que não havia casa nenhuma ao lado ele respondeu: “Não? Então vamos construir uma!”

Seguindo essa lógica maravilhosa alguns colecionadores resolver construir a “casa ao lado” e criaram seus próprios sites de vendas, um deles o whiskyBay – agora extinto. Com 1 ano e meio de existência alguns dos membros começaram a dizer que algumas das garrafas que compraram no site eram suspeitas. Luc Timmermans, por exemplo, disse que um conhecido havia comprado uma garrafa de Ardbeg de um vendedor que usava o nome “Oldbottles”, a garrafa tinha a tampa de rosca pintada de dourado, o rótulo parecia uma cópia e não uma impressão original e de brinde vinha com erros de grafia.

Essa não foi a única,  um monte de garrafas de Macallan, Springbank e outras estavam sendo postas à venda e os vendedores eram todos da Itália. Listas negras de nomes foram criadas, IP’s foram banidos, dados compartilhados… mas na internet se criar uma identidade falsa não é algo complicado, ainda mais porque todo validação inicial e comparação de dados é feita por computadores, se você engana a máquina, está dentro.

like a boss

Isso foi a causa de muitos sites mais caseiros de leilão ou vendas de garrafas não existirem mais mas a internet continua um terreno fértil para falsificações. Hoje temos sites com Market Places, isso funciona assim: um site respeitável, como Carrefour ou Magazine Luiza para citar alguns com os quais estamos habituados, cedem espaço em suas páginas para produtos de terceiros, se você não presta atenção acaba achando que está comprando com a MagaLú, mas na verdade é um outro vendedor.

Além disso a internet tem a vantagem de você poder criar uma conta, dizer que está vendendo um Caol Ila de 1983 e, uma vez a compra sendo feita, mandar uma garrafa de Coca-Cola e sumir. “Besteira”, dirão alguns “Todos os vendedores são avaliados por clientes!”, e eu posso, antes da minha garrafa imaginária vender 20 caixas de fósforos para 20 “amigos” me avaliarem e eu terei uma reputação impecável.

Claro que não precisa ser extremo assim, pense no exemplo da garrafa de Ardbeg Uigeadail que eu dei lá no começo do texto.

É por isso que empresas como a RW101 encontram um terreno para prosperarem.

Anteriormente cheguei a falar de forma discreta sobre a RW101 e a Whisky.Auction e “propaganda” que faziam. Vamos jogar a discrição pela janela: parece que não são apenas os falsificadores se eriçando com este novo mercado, mas as pessoas que decidiram combatê-los. Por enquanto a maioria das notícias sobre whisky falso provém da RW101, que além de investigadores de picaretagens são também investidores de whisky, imagino que essa propaganda toda dê um ar de credibilidade e segurança para as garrafas que eles negociam, o que são uns trocados a mais por essa paz de espírito.

Afinal, como a RW101 sempre aponta quando vira notícia “O risco para o mercado é que estamos vendo um número crescente de arquivos raros ou antigos chegando ao mercado, e é muito difícil para olhos não treinados verificar a autenticidade … As falsificações que que descobrimos pode ser apenas a ponta do iceberg“. E nós acabamos com o papel de Titanic.

10- Nem só de artistas vive um circo

Até agora falamos dos Artistas, mas existem os Pilantras também, e eles são o pior tipo de falsificadores.

Vivemos em um país muito populoso com uma população muito criativa, uma terra que incentiva o surgimento falsificadores que se dedicam a falsificar centenas de garrafas de White Horse e Passaport. Bem vindos ao Brasil! Esse mal parece ser bem comum em países como o nosso, Estados Unidos, a Índia e a Rússia, por exemplo. E o alvo desses Pilantras não são apenas consumidores finais mas bares e fornecedores.

vai um whiskinho a preço de banana, meu patrão?

Em 2013 a Delegacia de Combate aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DCPim) prendeu dois homens suspeitos de vender bebidas alcoólicas falsificadas no Distrito Federal. Um dos suspeitos era responsável pela mistura das bebidas; o outro, pela venda e distribuição do produto.

Junto com os homens foram apreendidas 200 garrafas de whisky, vodca e champanhe, rótulos e lacres de bebidas importadas. Dentre os whiskies havia garrafas de Red Label, Buchannan’s 18 e Old Parr. Eles diziam que tinham contatos com embaixadas e, por isso, conseguiam vender as bebidas por um preço inferior.

As garrafas, compradas de garçons que trabalhavam em festas – a garrafa vazia de whisky 8 anos custava R$3 enquanto a de 12 anos R$8 – eram vendidas em bares e para clientes do Lago Sul por cerca de R$ 40.

Segundo a polícia, o suspeito afirmou que lucrava cerca de R$ 3 mil por mês com o comércio de bebidas falsificas, o delegado, no entanto, acredita que o faturamento seja maior, em torno de R$ 30 mil mensais.

Em 2017 foi a vez da Operação Pinga Fraca prender dois falsificadores em Pontes e Lacerda, reabasteciam garrafas e as vendiam pela internet.

Já no Ceará, em 2019, a polícia militar fechou uma fábrica clandestina de whisky no Bairro Cirolândia, na cidade de Barbalha. O falsificador vendia a bebida – várias garrafas de Black and White aparecem nas fotos – por R$30. O criminoso, Wellison Felipe Beserra da Silva, conhecido como “gago do whisky”, no começo negou o crime, mas depois confessou que vinha falsificando desde o ano anterior, com a aproximação das festas da região ele não resistiu.

Se gosta de acompanhar esse tipo de coisa entre em um site como o http://www.jusbrasil.com.br e procure “whisky falsificado”.

O problema deste tipo de prática é que se você der sorte, sua garrafa de Old Parr vai estar cheia de Drury’s, se der azar metanol e corante.

Esse mercado não se baseia em especulação ou colecionabilidade mas em volume e, claro, ele não é novo, esta é a capa da Diretrizes de maio de 1942:

Para quem quiser, estou deixando a reportagem de 4 páginas para download em formato PDF aqui.

Quem disse que beber Whisky é entediante?

11- Considerações finais

E depois disso tudo, como podemos evitar ser vítimas desse tipo de golpe?

Com bom senso e memória.

Quer comprar whiskies diferenciados?

Quer whiskies normais para o dia a dia? Procure lojas grandes online.

Experimentes whiskies nacionais, tanto blends quanto single maltes, excelentes:

Quer um Blue Label a R$150,00 ou um Macallan a R$200,00? Com certeza vai achar um monte de gente doidinha para fazer um novinho em folha para você.

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