Master Class aula 1: Bell’s

I’ll give you black sensations up and down your spine
If you’re into evil, you’re a friend of mine
See the white light flashing as I split the night

~ AC/DC, Hells bells

Existem 3 tipos de pessoas: as que conseguem aprender lendo, as que conseguem aprender observando e as que precisam mijar na cerca elétrica para aprender. Hora de irmos para o quintal e começar a beber.

Turma, este é o seu novo professor.

Imagine um belo por do sol, você em uma poltrona reclinável – roupa é opcional – bebericando um Glen Scotia 15 anos. Ahhh… como whisky é bom.

Claro que isso é a mesma coisa que ser rico, bonito e saudável e dizer que a vida é boa! Vamos jogar lama nessa imagem e voltar às raízes.

BELL’S: preço 2 Big Macs a 2½ Big Macs

1- Biografia do Whisky

A primeira curiosidade quando você se mete com o Bell é fruto do que parece ser uma viagem no tempo mal sucedida: a destilaria Bells foi fundada em 1798, mas Arthur Bell, o criador do whisky, só viria a nascer em 1825.

O que parece ser algo estranho – um blend ter uma destilaria anacrônica – na verdade é algo bem comum. A destilaria que produz o “coração” do Blend muitas vezes é eleita – ou comprada – pela empresa que fabrica o whisky e se torna seu lar oficial.

Mas a história do Whisky começa em 1825, ano de nascimento do pequeno Arthur, quando um certo Thomas Sandeman abriu uma mercearia especializada na venda de cervejas, vinhos, chás e whiskies em Perth, uma cidade do centro da Escócia situada às margens do rio Tay, capital administrativa do concelho de Perth and Kinross.

Thomas Sandeman morreu em 1837 e sue sócio, James Roy, continua tocando os negócios. Em algum momento em 1845 Arthur Bell é contratado como caixeiro viajante pela empresa e eventualmente se torna sócio da mercearia.

A partir de 1851, Bell fez o que todo dono responsável de uma loja de bebidas faria: se jogou no whisky! Começou a desenvolver os próprios blends tentando criar uma bebida que julgasse ser equilibrada, saborosa e um sucesso de vendas. E ele conseguiu!

Além de criar seu blend ele foi pioneiro em contratar um agente sediado em Londres para representar seus negócios em 1863 e em 1880 a empresa estava focada em vender blended whisky. Em 1895 seus dois filhos entraram para o negócio do pai, se tornando sócios da empresa, Arthur Kinmond se tornou responsável em administrar o mercado doméstico e Robert Bell foi nomeado o responsável pela marca do outro lado do oceano, os irmãos conseguiram dobrar o faturamento da empresa nos anos que se seguiram. Em 1896 a assinatura de Bell foi registrada, assinatura que até hoje está presente em todas as garrafas. Bell morre em 1900.

Em 1904 a marca “Extra Special” foi registrada e usada ao lado do nome de Bell, na prática esse foi o primeiro blend ‘oficial’ da família e o rótulo Extra Special foi usado até 2008 quando introduziram a variante “Bell’s Original”.

Em 1921 a sociedade se tornou uma empresa privada administrada por Arthur, seu irmão se aposentou e foi viver no campo, e os Estados Unidos viviam a época da Proibição, mesmo assim os negócios prosperavam, em grande parte graças ao investimento em marketing e o uso de agentes de vendas – muitos deles membros da família Bell espalhados pelos 4 cantos do Império Inglês – isso possibilitou que a empresa chegasse a comprar três distilarias entre 1933 e 1936: Blair Athol, Dufftown e Inchgower.

1921 também foi o ano em que o slogan “Afore ye go” foi registrado, apesar de só começar a ser usado em 1925.

A Blair Athol, fundada em 1798 se tornou o “lar do Bell’s”. A destilaria passou de mão em mão desde sua fundação até ser desativada em 1932. A Bell’s a comprou em 1933 e em 1949 reaberta depois de ser reformada – ou ter sido praticamente reconstruída.

Os irmãos Bell morreram em 1942 e o contador da empresa, William Govan Farquharson, tornou-se o chefão, passando a investir ainda mais em marketing, 12 anos depois a Bell’s estava exportando para mais de 130 países.

Em 1970, a Bell’s era o blended scotch mais vendido e consumido na Escócia e, em 1978, tornou-se o mais vendido no Reino Unido, o valor das vendas cresceu cerca de 800% entre 1970 e 1979, sua produção pulou dos 4.75 milhões de litros por ano para 13.44 milhões de litros, o único player – para usar um desses termos da moda – que conseguiu fazer frente a ele foi o Famous Grouse em 1980 e mesmo assim a Bell’s podia se gabar de ter 35% do marcado de blends no bolso.

Em 1984 a Arthur Bell & Sons compraram a rede de hotéis Gleneagles e em 1985 a empresa foi comprada pela Guinness pela módica quantia de U$518 milhões de doletas, depois de um tempo foi novamente comprada pela Diageo.

Uma das mudanças mais significativas na receita do blend aconteceu em 1994. Nesta época havia um excesso de maltes mais amadurecidos – ou envelhecidos se preferir – inundava o mercado, foi quando a Bell’s começou a estampar em suas garrafas uma declaração de idade de 8 anos, algo que conseguiu adicionar mais sabor e qualidade – além de muitos elogios – para a bebida.

P: O cardápio da minha churrascaria está certo então! O Bell’s então tem 8 anos!
R: Não, meu caro e afobado aluno – ou cara e afobada aluna. A onda de whiskies mais maduros acabou e eles escassearam em 2008 e a declaração de idade foi removida das garrafas, assim o Bell’s hoje é um NAS – No Age Statement ou Sem Idade Declarada – tudo o que sabemos é que o whiskly mais novo que vai em sua mistura tem pelo menos 3 anos e 1 dia de idade.

Nesta época a garrafa foi rebatizada como “Bell’s Original”, ou Receita Original do Bell’s, a Diageo explicou essa mudança afirmando que como não haviam mais maltes envelhecidos mais do que 8 anos essa nova receita era mais próxima à primeira formulada originalmente por Arthur Bell. Ahhhhh o marketing, cheio de palavras doces…

Hoje os principais mercados para Bell’s Original são o Reino Unido, África do Sul, os países nórdicos, Espanha e nós aqui no Brasil. A marca está entre os 10 blends mais vendidos no mundo.

Quanto à famosa garrafa, hoje com uma simpática forma de alambique, em 1920 começaram a surgir as garrafas de cerâmica, usadas para marcar ocasiões especiais, e em 1930 surgiu a em forma de sino. Hoje a cada natal eles lançam uma garrafa comemorativa e a mais popular é a de 1981 lançada para comemorar o casamento real do Principe Charles e Lady Diana Spencer – os preços chegando a £348.90 ou R$2.650,85 ou ainda 121 Big Macs aproximadamente.

Chega de papo furado

2- O whisky

Isso tudo é a história, os fatos e os números da Bell’s. Com isso dá para ter uma ideia do que vamos encontrar na garrafa, mas antes CALMA! Devemos ser como arqueólogos varrendo o pó para longe dos ossos do belo dinossauro que estamos escavando.

O whisky tem uma tradição que começou de fato a se estabelecer em 1880. Ele já foi o whisky mais vendido e consumido na Escócia e então no Reino Unido e hoje está entre os top 10 do mundo. Imagine como deve ser o whisky preferido pelos caras que inventaram o whisky (na verdade os segundos a inventar, não vamos nos esquecer do Irlandeses, mas você entendeu o que eu quis dizer)!

Vou traçar um paralelo aqui. O Brasil é o país da cachaça. Até janeiro de 2020 ocupava o primeiro lugar no ranking das marcas de cachaças mais vendidas nos 100 bares mais premiados do mundo. Ela foi a mais bem colocada no ranking publicado pelo “Annual Brands Report”, suplemento especial da Drinks Internacional. Além do destaque nas vendas, a 51 está no top 5 das marcas com maior tendência de crescimento e consolidação no mercado.

A cachaça 51 também é a mais utilizada pelos bartenders para fazer caipirinha, bebida que é um símbolo nacional e quem vem caindo nas graças dos consumidores internacionais de alto nível, sendo um dos 100 coquetéis mais pedidos nos bares avaliados. A 51 é, sozinha, a responsável por 40% do volume total de cachaça comercializada no Brasil, com presença em mais de um milhão de pontos de vendas, onde se consomem, em média, 374 mil doses por hora. As exportações da bebida já alcançam 56 países em todos os continentes, com destaque para a Portugal, Espanha, Itália e Estados Unidos.

Agora pare para pensar se a 51 é a melhor cachaça produzida na terra dos inventores da cachaça, ela certamente não é a pior, mas dizer que é a melhor é complicado. Entendeu de novo o que eu quero dizer? Só porque algo é extremamente popular não quer dizer que seja bem… o filho mais brilhante da família. Vamos voltar ao whisky.

Por outro lado, o Bell’s foi criado para ser popular e ser produzido quantidades estratosféricas. Ele tem como objetivo ser popular e não um exemplo de qualidade e sabor e ele cumpre muito bem esse papel. É por isso, inclusive, que ele está na faixa de preço dos 2 Big Macs, e se isso não é um whisky honesto eu não sei o que é.

O que sabemos da sua receita ou, em linguagem fina das pessoas cultas que adoram apreciar um bom whisky, qual o seu Blend?

Bell’s é o resultado da mistura de mais ou menos 40 whiskies diferentes. Existe uma regra geral que diz que os blends industrializados costumam ter em média entre 70 e 80% de whiskies de grão e 20 a 30% de single maltes em sua mistura. Qualquer aproximação neste caso seria um chute.

O que podemos afirmar são alguns dos single maltes: o principal é o Blair Athol, seu coração. Além dele também entram o Dufftown, Inchgower, Glenkinchie e Caol Ila para dar aquele toque defumado e marítimo de Islay. O quanto desses maltes, em que quantidade e que proporção? Segredo de estado! Entram outros? Qualquer resposta seria um chute. Mas essa receita poderia sugerir um whisky com sabor de grãos e especiarias, com notas florais e frutadas, talvez amêndoas e uma sugestão de turfa – defumado marítimo.

Quanto tempo eles passam no barril? Bebendo Bell’s você vai perceber que ele é um blend composto por whiskies bem jovens. O álcool é bem aparente, muitos dizem que tem um sabor metálico.

Ele leva caramelo, então ignore a cor.

3- Hora da Verdade

A primeira coisa a fazer quando se compra um whisky é namorar o rótulo e a caixa, lembre-se: eles contam histórias.

Examinando o rótulo e a caixa o que podemos saber?

1- Produzido, misturado (blended) e engarrafado na Escócia.

2- Fine Old não quer dizer nada, então ele é um NAS (No Age Statment ou Sem Idade Declarada)

3- É um Blend

4- Foi fundado em 1825

5- Amadurecido em barris de carvalho selecionados para um sabor mais rico: não quer dizer nada.

6- Tem caramelo

7- É “o whisky escocês mais famoso da Grã Bretanha”.

8- O slogan “Afore Ye Go”, usado desde 1925

9- 40% de ABV

10- A litragem dele, no caso 1 litro.

Depois de ler todo o primeiro capítulo você já deve estar familiarizado com muitos desses dados e, mais importante, saber o que eles querem dizer e de onde vêm.

Uma curiosidade extra: o slogan “Afore Ye Go” tem um significado bonitinho. Ele é uma versão “antiga” em inglês da frase “Before you go”, ou “Antes que você vá, ou saia”. Essa frase quer dizer na verdade “fica um pouco mais e aproveita para tomar mais uma dose!”, então ela é um convite para você entornar mais um pouco. A famosa saideira sem fim! Mas a implicação é ainda mais interessante, é uma forma de celebrar a amizade, afinal quando você tem boa companhia, um bom whisky e boas histórias para contar, por que encerrar a noite? Ahhhhh o marketing, cheio de palavras doces…

Agora é hora de abrir sua garrafa, encher sua taça

P: Taça? Como assim taça?
R: Ahhh petiz… veja a primeira aula aqui.

Então, hora de encher a sua taça, fazer o whisky dançar um pouco inclinando-a gentilmente para cobrir as paredes com a bebida e esperar. Dê ao whisky 1 ou 2 minutos para ele acordar e começar a fazer as coisas de whisky dele – liberar mais aromas para você.

Aromas:

De cara você percebe que é um whisky bem jovem. Álcool presente, mas não só isso: os aromas dele evaporam bem rápido. Aroma doce, adocicado… quase pão de mel. Um doce de nata, é difícil dizer se o defumado está lá ou você só quer que ele esteja e está imaginando. As especiarias também estão bem de leve, se misturam com o aroma de carvalho do barril, o doce queria ser baunilha mas não chega lá.

E o pior é que parece que cada vez que você consegue focar um aroma específico ele simplesmente evapora, deixando só o aroma forte de grãos, do álcool.

Sabor:

Ele tem uma certa oleosidade e isso não é ruim. Whiskies mais oleosos, com certa viscosidade, preenchem melhor a boca, em tese espalham mais o sabor. Agora, se o aroma acabou sendo meio brochante por causa de sua efemeridade, na boca a coisa fica ainda mais fantasmagórica.

De cara é um whisky doce. O doce fala mais alto. Álcool de grãos dominando a parada, como hooligans depois de um jogo de futebol – e pelos gritos você não sabe muito bem se o time deles ganhou ou perdeu.

Com umas 3 doses e muita dedicação nelas dá para pescar algo da nata, algo que lembra leite, alguma coisa de frutas tipo cheirar casca de maçã no supermercado – aquela camadinha de cera que transforma o perfume da maçã em um fantasma, pode ser alguma coisa de frutas secas, o doce do álcool se confunde com o doce da madeira. Mas todos os sabores são bem superficiais. Caol Ila? Afogado no meio disso tudo. Por incrível que pareça ele é mais complexo no nariz do que na boca.

Considerações finais:

Adoro a pergunta “que whisky você levaria para uma ilha deserta?”, mas gosto mais ainda quando ela muda: “se você se visse preso em uma ilha deserta e lá só tivessem garrafas e mais garrafas de Bell’s, você as desdenharia?” A minha resposta é CLARO QUE NÃO!

Imagine que conseguem produzir um whisky que atravessa o oceano, chega em nossas praias por este preço! São pessoas competentes, ao mesmo tempo você percebe que é um whisky novo, sem profundidade – como a maioria dos blends NAS populares – e sem muito carinho com o seu conteúdo, apesar das doces palavras marketeiras. Mas é um whisky consistente e tem tudo o que um whisky básico precisa ter.

Se esta jornada é nova para você não estranhe se só sentir cheiro e gosto de whisky, invista no copo, encha de novo, prove de novo. Encerre a noite e prove na noite seguinte. No dia seguinte. Na manhã seguinte. Encha uma tacinha logo que acordar e cheire, muitas vezes a perspectiva muda, vem coisas novas. Quer se aprofundar nos aromas? Leia este artigo.

Coloque em um copo com gelo, ponha água e prove – a água ressalta o doce e acaba com os outros aromas, mas tá valendo tudo, você está descascando o whisky como um macaco faminto descasca uma banana, não tem porque ser educado… ou limpo.

O importante é ir se acostumando. Se você conseguir curtir um copinho ou uma garrafinha de Bell’s acredite, a estrada que temos diante de nós será coberta de delícias, algo como o paraíso islâmico, só que melhor!

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